Trilhos TT: Como Criamos os Nossos Percursos?
SOFTWARE NAVEGAÇÃO - DICAS
A menos que sejas dos resistentes que ainda navegam de mapa na mão, todos nós já recorremos, invariavelmente, a uma ou outra solução digital nos nossos passeios e aventuras.
1. Como Criamos os Nossos Percursos?
Hoje existe uma panóplia de serviços e aplicações que, dependendo do ecossistema que utilizamos, podem ser conjugadas e complementadas entre si. E isto aplica-se a todo o ciclo de vida de um trilho de todo-o-terreno — desde a fase inicial de investigação, passando pela criação do trajecto, ajustes, inclusão de pontos de interesse e, claro, a verificação final antes de sairmos para o terreno.
Este artigo não tem como objetivo ensinar passo a passo como utilizar cada ferramenta. O que queremos é partilhar convosco as soluções que utilizamos no Espírito TT, aquelas que testámos ao longo dos anos e que atualmente fazem parte do nosso método de trabalho.
Tal como ouvimos muitas vezes dizer: preferimos dar-vos a cana para aprenderem a pescar, em vez de vos dar o peixe. Sejam curiosos. Sejam exploradores. Primeiro nos mapas, depois no terreno.
2. Porque é fundamental planear um trilho de todo-o-terreno?
Planear não tem que ser uma seca, mas sim uma parte integrante da aventura.
No todo-o-terreno, improvisar faz parte da experiência, mas sair para o terreno sem uma linha mestra raramente é sinónimo de liberdade. Na maioria das vezes, é apenas falta de algum método.
É nesta fase onde entram as tuas ideias e a visão da tua jornada, onde o objectivo não é ainda desenhar.
Materializas o propósito e o teu objectivo na identificação das matrizes essenciais, tais como:
a zona geográfica, pontos de interesse, possíveis considerações legais (áreas protegidas por exemplo), onde pernoitar (se for caso disso), verificação de histórico de passagem, e continuidade/manutenção dos caminhos.
Ah, mas eu sou espontâneo. Tudo bem, mas alguma estrutura permite uma jornada com outra qualidade, as ligações entre segmentos podem fluir, e as zonas técnicas passam a ser conhecidas.
Nesta fase utilizamos várias ferramentas em conjunto.
2.1 Wikiloc
Em Portugal é provavelmente a plataforma mais conhecida quando falamos de pesquisa de trilhos partilhados para o todo-o-terreno.
Contém uma impressionante quantidade de trilhos por todo o mundo, mas muitos de vocês provavelmente só o utilizam para pesquisa e navegação dos trilhos já existentes. Para nós, a maior utilidade está nesta fase de investigação. Quando bem filtrado, pode servir de base de inspiração para identificar zonas com histórico recente de passagem (aquele trilho de 2010 provavelmente já não está igual), perceber ligações interessantes para o teu propósito entre diversos trilhos, consultar fotos georreferenciadas, e… analisar comentários.
Aqui, a regra é simples: deves trabalhar sempre com informação o mais recente possível, e minimamente caracterizada.
2.2 OpenStreetMap (OSM)
Embora não seja uma aplicação específica, o OSM está presente e pode ser customizado em diversas outras ferramentas. É, na prática, uma “Wikipedia dos mapas”. É colaborativo, gratuito e constantemente atualizado pela comunidade, e julgamos que para a Europa apresenta um nível de detalhe muito interessante para caminhos rurais e florestais, com categorização de vias (track, path, service road, entre outras) e respectivas escalas, que permitem uma análise técnica mais aprofundada a cada segmento. Alguns pontos de interesse também estão aqui representados.
2.3 Google Maps e Google Earth Pro
Gratuitos e poderosos, portanto não precisas de pagar nada para sonhar com os teus trilhos.
Embora não sejam ferramentas desenhadas para todo-o-terreno, julgamos que são excelentes para reconhecimento visual das envolvências, efectuar a escolha de pontos de interesse, ler as críticas e visualizar fotos dos locais.
O Google Earth Pro pode ainda ser modificado, elevando-o em capacidades tais como inclusão de outros mapas que não os da Google, e ter também uma perceção da orografia.
2.4 AllTrails e Komoot (como complemento)
Embora não sejam orientadas para 4×4, podem ser boas bases de dados complementares, sobretudo para a malta das motos trail. São serviços com subscrição, mas a sua utilização na forma gratuita pode ser útil na fase de planeamento e análise com acesso a bases de dados, e permite acesso a informação e fotos partilhadas com georreferenciação.
Vale o que vale, mas por vezes encontramos alguma informação útil.
3. Criação e Edição: Transformar a ideia no teu trilho
Depois da fase de análise, chega o momento de materializar as tuas ideias.
Já sabes onde vais começar, onde terminar, e o que pretendes visitar, portanto é a altura de começares a criar o teu trilho.
Conforme o teu propósito, podes fazer a divisão por dias, sectores, sendo que existem três formas de criar um trilho:
- Totalmente manual – para quem tem tempo e prefere controlo absoluto.
- Semi-automática – um equilíbrio entre eficiência e controlo.
- Totalmente automatizada – rápida, para os preguiçosos, e menos fidedigna para todo-o-terreno.
3.1 Wikiloc (criação manual)
Na versão web, o Wikiloc permite criar os teus trilhos manualmente, ponto a ponto. Embora exista uma ferramenta chamada “Route Planner”, não recomendamos a sua utilização, uma vez que não é compatível com todo-o-terreno.
Quando inicias a criação manual, terás que clicar no ponto de começo, e depois ir clicando para ir acrescentando ponto a ponto no mapa ao longo do teu percurso idealizado.
O caminho não precisa ser delineado ao mais ínfimo pormenor, mas deve conter as linhas condutoras que permitam a tua orientação no terreno. É possível também adicionar Pontos de Interesse / Waypoints. Se os pretendes importar, recorda-te que só consegues incluir 50 waypoints para dentro do Wikiloc.
3.2 Garmin BaseCamp (Criação manual e semi-automática)
Apesar de estar descontinuado oficialmente desde 2023, continua a ser a ferramenta que utilizámos durante muitos anos, e ainda hoje nos permite fazer algumas coisas de forma intuitiva.
Utiliza-se como uma biblioteca para a nossa coleção de trilhos, onde de forma simples, clara e organizada, podemos visualizar um ou múltiplos trilhos ou segmentos utilizando algumas cartas baseadas em OSM. As nossas favoritas são a Freizeitkarte e OpenTopoMap.
No processo de criação do teu trilho, além da possibilidade de manualmente adicionar ponto a ponto, podemos optimizar o nosso tempo com recurso à funcionalidade “New Route”, que com recurso ao perfil que definires (Todo-o-terreno, Carro, Pedestre, entre outros) irá desenhar automaticamente o teu trajecto. Basta definir o ponto de partida, pontos intermédios de passagem, e ponto de chegada (sendo que podem ser um ponto no mapa ou um ponto de interesse) para que o software gere um esboço. No entanto, não esquecer que o caminho é gerado com base em OSM, logo se o caminho não estiver presente, não existe para o algoritmo.
Podes sempre editar segmentos, tanto de forma automática (adicionado zonas de passagem), ou selecionado directamente no mapa um novo ponto intermédio para passagem.
3.3 BRouter (Semi-Automática / Automática)
Gratuita e com uma versão Web, é atualmente uma ferramenta muito interessante e flexível para criarmos os nossos trajectos de forma bastante automatizada.
Com mapas baseados em OSM – OpenStreetMap, também é possível adicionar novos layers customizados, o que significa que podemos adicionar novos mapas à visualização, incluindo imagem Satélite/Foto aérea.
Tal como referido para o Garmin BaseCamp, o conceito de utilização é semelhante. Marcamos os pontos por onde desejamos passar, e com base no perfil escolhido, a ferramenta calcula e desenha o trajeto para nós. O cálculo permite a afinação ao pormenor, bonificando ou não determinado tipo de trilho cartografado, mas apresenta a mesma limitação de outros sistemas que calculam o trajeto com base nas vias registadas em OSM.
Para nós, representa um excelente compromisso entre simplicidade e flexibilidade. Ideal para quando se pretende criar um trajecto simples e rolante.
3.4 QGIS (a nossa ferramenta de eleição)
Se as anteriores são ferramentas focadas na navegação, o QGIS é um sistema de informação geográfica completo.
Embora não seja a nossa intenção que o teu primeiro contacto neste mundo seja logo com uma ferramenta com uma curva de aprendizagem considerável, cabe-nos afirmar que atualmente é a plataforma que mais utilizamos para criação e validação técnica de trilhos.
Sendo um sistema de informação geográfica de código aberto e multiplataforma, entre as suas vastas funcionalidades e possibilidades de customizações, permite-nos, quando afinada, criar e editar trajectos em segurança através de dados vetoriais ou raster (ficheiros de imagem).
Com possibilidade de acesso a imensas fontes de informação, para o nosso propósito, por exemplo, é possível utilizar Google, Bing, ESRI, OSM, Thunderforest, entre outros, e conjugar com modelos digitais de elevação (DEM), para gerar perfis de elevação e declives. Como a sua operação é definida por camadas (layers) permite a sobreposição de diversas fontes de informação em simultâneo. A título de exemplo, podes conjugar os mapas com orografia via satélite Copernicus, mapas SIG com identificação de geologia, zonas ardidas, áreas protegidas, ou delimitação de propriedades.
Como é um canivete suíço, para os menos habituados a estas andanças tem como grande contra a sua complexidade inicial e necessidade de configurar a aplicação para as nossas necessidades. No entanto, permite uma liberdade enorme para o planeamento dos passeios. Podes criar o teu trajecto manualmente ponto-a-ponto, criar uma rota totalmente ou parcialmente automatizada com base em OSM, e claro, editar zonas, segmentos e efectuar curadoria dos mesmos. Se queres ir mais longe, é difícil voltares atrás.
4. Verificação Final: Antes de ires sujar as rodas
Tens o trajecto criado e tecnicamente estruturado e alinhado? Ainda não está terminado!
Da nossa parte, gostamos sempre de fazer uma última validação visual com o velho conhecido Google Earth Pro, e neste caso optámos pela versão instalada no nosso computador.
Embora permita também criar percursos ponto a ponto, não é essa a sua principal função no nosso processo. Utilizamo-lo essencialmente como ferramenta de verificação final.
A visualização 3D permite uma clareza única e a representação da orografia dá-lhe um toque interessante. Por outro lado, o acesso ao histórico de fotogramas mais antigos é-nos útil para analisar possíveis alterações no terreno. É simples, mas eficaz.
Em zonas de ligação entre os teus segmentos, em estradas municipais ou acessos urbanos, o Street View pode ajudar a confirmar estradas discretas, envolvências, ou ruelas estreitas onde poderás não te querer meter…
E claro, para não perder o aspecto e algumas funcionalidades do QSIS, o nosso Earth Pro está customizado para receber camadas adicionais de mapas. Ou seja, não trabalhamos apenas com o mapa satélite mas também com o Google Maps, Bing, ESRI, Open Street Map, Open Topo Map, Thunderforest, entre outros, mantendo a visualização 3D.
Em forma de conclusão, diríamos que há boas aplicações, mas não há aplicações perfeitas.
Cada uma apresenta pontos fortes e limitações, e cabe agora a ti, aventureiro, encontrares o teu toolset preferido. Lembra-te, no entanto, que o planeamento permite sair para o terreno com maior confiança, mas nenhuma tecnologia irá substituir a tua experiência, leitura de terreno, e o bom senso.
Esperamos que esta nossa partilha com os métodos que fomos aprendendo ao longo do tempo tenha de certa forma despertado a vossa curiosidade.
Tal como dissemos no início, preferimos dar-vos a cana.
Façam-se aos mapas, e depois aos trilhos. Vemo-nos por aí.
